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vol 36 • 2024

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Estudar, dialogar e agir: docentes conversam sobre o estudo e a profissão a partir de Paulo Freire

Estudar, dialogar e agir: docentes conversam sobre o estudo e a profissão a partir de Paulo Freire

Gisele de Souza Gonçalves y Fernando José Martins, Universidade Estadual do Oeste do Paraná (Brasil)[1]

Resumo

Este artigo busca relatar uma experiência de debate sobre o texto “Considerações em torno do ato de estudar”, de Paulo Freire, entre nós, autores deste artigo e pesquisadores do autor, e professoras da rede municipal de Foz do Iguaçu e, a partir dela, analisar a teoria freireana junto à prática do diálogo, destacando a necessidade da formação continuada na docência numa perspectiva que valorize o diálogo e a criticidade na escuta atenta das demandas de professores e professoras que atendem alunos da rede pública.

Palavras-chave

Diálogo; Estudo; Docência; Paulo Freire.


A teoria freireana, antes e agora, necessária para pensarmos a educação como processo emancipador do sujeito foi a motivação desta escrita. O texto escolhido para o desenvolvimento da conversa com docentes “Considerações em torno do Ato de Estudar”, está no livro “Ação cultural para a liberdade e outros escritos”, publicado pela editora Paz e Terra. A atividade aconteceu durante a Feira do Livro[2], em uma tarde, na cidade de Foz do Iguaçu, no estado do Paraná, Brasil. No dia 23 de novembro de 2022.

A proposta intitulada como “Da Leitura da Palavra à Leitura do Mundo”, tinha entre seus objetivos, assim como este artigo, estimular a leitura em um contexto de compreensão do mundo, das relações científicas e sociais que envolvem a realidade. Por isso, buscamos abordar o texto em questão o relacionando com as relações acadêmicas identificadas na produção científica freireana e a realidade apresentada por docentes no que diz respeito à formação, incentivo e ensino.

As demandas apresentadas pelo grupo de docentes na atualidade e a necessidade de compreensão dessa realidade e de sua existência como sujeito dela, pôde ser comentada e relacionada com o texto freireano, cujos fragmentos serão citados para melhor articular as relações entre teoria e prática.

Assim, buscamos organizar o texto em três seções: 1. Os sujeitos e suas percepções; 2. Teoria e Prática: a necessidade de pensar e analisar nossa ação; 3. É preciso esperançar frente às condições adversas; 4. Considerações.

1. Os sujeitos e suas percepções

Os sujeitos participantes da atividade de que tratamos neste artigo são professoras e professores da rede municipal de educação da cidade de Foz do Iguaçu. A tarde de conversa proposta por dois pesquisadores contou com a participação de 16 inscritos. O grupo era bem diverso: havia professora em processo de aposentadoria e também professoras e professores iniciando na carreira docente. Alguns que trabalham na rede privada e pública. Todos buscando ouvir e falar sobre suas experiências. De diferentes escolas e regiões, os/as docentes apresentavam suas experiências, falavam sobre as turmas onde atuavam e seus desafios, além de falar sobre práticas que ajudam na profissão.

Um dos temas mais abordados nas falas foi a inclusão. Destacavam a presença de crianças neuroatípicas e a interação com as outras crianças: algumas com maior dificuldade, outras bem acolhidas pela turma.

Como a atividade foi proposta em uma tarde, em uma quarta-feira, apenas docentes que estavam no período de hora-atividade puderam se inscrever. Destacamos que a organização da Feira do Livro oportunizou o desenvolvimento desta atividade ofertada a docentes da rede municipal de educação.

Nossa metodologia se deu, com a aceitação do grupo, da seguinte forma: cada participante tinha o texto físico em mãos - considerando que este foi entregue pessoalmente e que assim poderiam fazer anotações e ainda levá-lo para possíveis releituras - e este foi dividido em três seções, sendo que cada uma delas recebia a leitura silenciosa do grupo e após o término de leitura do trecho, era iniciado o debate sobre teoria e prática.

As análises desenvolvidas durante a dinâmica serão apresentadas na sequência com alguns fragmentos e as percepções do grupo.

2. Teoria e Prática: a necessidade de pensar e analisar nossa ação

Nossa conversa, após a apresentação dos sujeitos e as boas-vindas, começou com alguns apontamentos sobre o ato de estudar e sua importância, não apenas para os alunos, mas também para os docentes.

Com a intenção de destacar o quanto o momento era importante e que a bibliografia escolhida o foi com muito respeito, abordamos o seguinte trecho: “Toda bibliografia deve refletir uma intenção fundamental de quem a elabora: a de atender ou de despertar o desejo de aprofundar conhecimentos naqueles ou naquelas a quem é proposta” (FREIRE, 2021, p. 09).

Assim o tema da oficina foi apresentado e justificado tendo como fundamentação o próprio texto de estudo, no qual Paulo Freire destaca: "Esta intenção fundamental de quem faz a bibliografia lhe exige um triplo respeito: a quem ela se dirige, aos autores citados e a si mesmos" (FREIRE, 2021, p. 09). Respeito à produção freireana; a nós, pesquisadores de Paulo Freire; aos docentes inscritos que justificaram, durante a oficina, ainda que involuntariamente, o motivo de estarem ali: buscar mais conhecimento frente aos desafios de sua rotina em sala de aula; e aos educandos - estes sendo a motivação daqueles em buscar estudos e momentos em que possam alcançar contribuições que favoreçam a práxis e, consequentemente, os alunos.

Justificada a proposta, buscamos fazer do momento um encontro onde todas e todos que quisessem dizer, seja contribuindo com suas experiências e/ou com suas impressões a respeito do texto, ficassem à vontade para dialogar.

Uma das primeiras abordagens dos participantes foi sobre o seguinte trecho: "Estudar é, realmente, um trabalho difícil. Exige de quem o faz uma postura crítica, sistemática. Exige uma disciplina intelectual que não se ganha a não ser praticando-a" (FREIRE, 2021, p. 09).

A partir desse fragmento, houve debate sobre o ato de estudar e suas dificuldades para professoras, professores, pesquisadoras e pesquisadores: todas e todos fazemos escolhas difíceis de serem iniciadas e concluídas em relação ao estudo. Explicaremos melhor: o fato de se predispor a estudar exige dedicação, abdicação, esforço intelectual e emocional, considerando nossas vidas, relacionamentos e rotinas. Portanto, é preciso reconhecer o processo trabalhoso que contempla o ato de estudar; logo, é preciso reconhecer em nós e nos outros e outras esse trabalho necessário e valoroso, especialmente na profissão da docência.

Retomando o início desta análise quanto ao que se escolhe apresentar como bibliografia, o grupo apontou o uso dos livros didáticos, os quais não são escolhidos por cada docente para atender especificamente sua turma, mas sim é resultado de uma seleção que atenderá o município. Todavia, ainda que os livros fossem escolhidos de acordo com a turma, não seriam livros elaborados de acordo com a realidade de um grupo determinado de alunos. Portanto, em situações assim, é importante fazer uma análise sobre o livro recebido e qual a melhor maneira de aproveitar seus conteúdos, de acordo com a criticidade dos profissionais e das características da turma.

Dessa forma, os comentários a respeito dos materiais didáticos, também puderam ser explorados a partir do seguinte trecho do texto em questão:

Estudar seriamente um texto é estudar o estudo de quem, estudando, o escreveu. É perceber o condicionamento histórico sociológico do conhecimento. É buscar as relações entre o conteúdo em estudo e outras dimensões afins do conhecimento. Estudar é uma forma de reinventar, de recriar, de reescrever - tarefa de sujeito e não de objeto desta maneira, não é possível a quem estuda, numa tal perspectiva, alienar-se ao texto, renunciando assim sua atitude crítica em face dele.

(FREIRE, 2021, p. 11)

Assim, destacou-se a importância de buscar entender e questionar as características dos materiais que chegam em nossas escolas e o interesse de quem eles buscam atender. À medida em que a conversa se aprofundava, foi perceptível que a participação ficava mais ativa entre os sujeitos, os quais traziam, de sua realidade, exemplos os quais estavam relacionados aos apontamentos do texto. O qual, como é característico de Paulo Freire, nos faz pensar sobre nossas atitudes e conceitos a partir da percepção de que estamos condicionados a práticas e repetições cotidianas em virtude de uma ideologia dominante. Como bell hooks (2017) aponta, a obra de Freire

em seu entendimento global das lutas de libertação, sempre enfatiza que este é o importante estágio inicial da transformação – aquele momento histórico em que começamos a pensar criticamente sobre nós mesmas e nossa identidade diante das nossas circunstâncias políticas.

(HOOKS, 2017, p. 67)

Assim, entre conversas, exemplos, retomadas e questionamentos, o texto de Paulo Freire destacou o quanto é necessário estudar e refletir sobre nossas condições, na escola e na vida, considerando que, como o autor (2021) defende:

Ninguém sabe tudo, ninguém ignora tudo. O caminho, pois, para superar nossas fraquezas está em não escondê-las, mas em discuti-las em função do concreto onde elas se expressam, como o caminho de confirmar as nossas positividades jamais poderá ser o de guardá-las avidamente conosco.

(FREIRE, 2021, p. 224-5)

De maneira horizontal, os sujeitos deste encontro – professores, professoras, pesquisador e pesquisadora – puderam compartilhar seus desafios na escola, na universidade, em seus estudos e na profissão da docência em seus aspectos para além da sala de aula.

3. É preciso esperançar frente às condições adversas

Paulo Freire evidencia categorias em sua obra de maneira quase que poética, que em um primeiro momento, podem ser subvalorizadas ou ainda, tomadas como conceitos frágeis e “mágicos” para usar as mesmas palavras de Freire. Ledo engano, todas as categorias do arcabouço freireano são extremamente densas e com significados transformadores. Um exemplo é a esperança. Objeto na maioria dos escritos, tema, inclusive do reencontro com sua obra clássica, a Pedagogia do Oprimido.

No senso comum, esperança pode estar ligada ao metafísico, ou mesmo à religião. No caso educacional, há uma espera de condições melhores que nunca se materializam. O primeiro elemento a ser destacado no conceito freireano de esperança é justamente que ela não é uma categoria etérea. “Não é, porém, esperança de cruzar os braços e esperar. Movo-me na esperança enquanto luto, e luto com esperança, espero” (Oprimido).

Em nosso campo empírico dessas reflexões, a oficina com professoras e professores sobre o pensamento freireano, encontramos evidências sobre essa convocação à ação que Freire faz na pedagogia do oprimido, ao constatar algumas situações limites, como o desvio das chamadas classes especiais e a prática de uma inclusão que se aproxima da racionalidade econômica, os professores evidenciam a necessidade de ações que superem o quadro. Esse é o mérito do pensamento freireano, ele consegue estabelecer conexões de elementos macro sistêmicos até o chão da sala de aula.

Freire, faz esse movimento desde a raiz do sistema dominante de nossa sociedade, até as formas de manifestações nos diversos tempos. Ele é um dos primeiros educadores, que mesmo sem se debruçar sobre a temática, evidencia a essência nefasta das políticas neoliberais para a educação, afirma: “Daí a crítica permanentemente presente em mim à malvadez neoliberal, ao cinismo de sua ideologia fatalista e a sua recusa inflexível ao sonho e à utopia”, logo nas primeiras palavras de seu livro Pedagogia da Autonomia. Ocorre que, na mesma obra, Freire localiza as raízes do formato neoliberal e seu formato de organização social.

O discurso da globalização astutamente oculta ou nela busca penumbrar a reedição intensificada ao máximo, mesmo que modificada, da medonha malvadez com que o capitalismo aparece na História. O discurso ideológico da globalização procura disfarçar que ela vem robustecendo a riqueza de uns poucos e verticalizando a pobreza e a miséria de milhões. O sistema capitalista alcança no neoliberalismo globalizante o máximo de eficácia de sua malvadez intrínseca.

(FREIRE, 2011, p.124)

O texto mostra a articulação (já citada) que Freire promove entre questões macros, como localizar no sistema capitalista a gênese da “malvadez” articulada aos elementos da globalização e seu formato neoliberal. O que mais impressiona é que tal debate, ainda que não apropriado pelas professoras e professores, se dá também nas análises do interior da sala de aula e de suas práticas pedagógicas.

Outro elemento que evidencia esse movimento totalidade-particularidade capaz de ser desenvolvido a partir das categorias freireanas, fora constatado na própria oficina e em torno do próprio ato da formação continuada das professoras e dos professores. Durante a oficina, entre os temas levantados, um deles foi a ausência de um processo contínuo, significativo e autogestionado das professoras e professores. Falamos da necessidade dos processos formativos estarem vinculados às realidades escolares, dos seus estudantes e da comunidade. E fora bem descrito e reivindicado pelo coletivo presente, que isso é obrigação do Estado e deve compor a prática docente, ou seja, fazer parte de sua carga horária de trabalho. Essa conquista pode parecer utópica, mas o é no sentido freireano de utopia. Um inédito viável, que é buscado por aqueles que têm esperança, mas não a esperança da letargia, mas a esperança do verbo esperançar.

4. Considerações

A obra freireana contribui não só com a formação docente, mas, sobretudo, com a formação humana. Para sermos docentes críticos é preciso entendermos as condições históricas e sociais em que estamos envolvidos. É preciso ter dúvidas e buscar respostas observando nosso cotidiano – na sala de aula e fora dela –; a produção intelectual desenvolvida a partir de vivências que podem favorecer a compreensão da nossa; e, sobretudo, a nós mesmos – entendendo nossos motivos e escolhas, para assim pensarmos em como e por que chegamos até elas.

O diálogo com nossos pares é uma possibilidade de ir além, de, como Freire diz “ser mais”. Assim, essa experiência pôde apresentar não só sugestões sobre como estamos envolvidos e envolvidas nos estudos por sermos docentes, além de apresentar perguntas sobre como estamos involuntariamente ligados a uma condição de reprodução, a qual pode ser discutida, revista e modificada por nossas ações, que, com criticidade, fazem a diferença no agir – em nós e em nossos educandos – numa relação dialógica e formativa que terá como referência o enfrentamento de desigualdades mantidas por um sistema excludente, fortalecido para beneficiar a poucos e desconsiderar muitos. São estes que precisam ser vistos e envolvidos numa educação libertadora.


Referências

FREIRE, P (2021). Ação cultural para a liberdade e outros escritos/ Paulo Freire (17ª ed.). Rio de Janeiro, Paz e Terra.

FREIRE, P. (2021). Cartas à Guiné-Bissau: registros de uma experiência em processo/ Paulo Freire (8ª ed). São Paulo, Paz e Terra.

HOOKS, b. (2017). Ensinando a transgredir: a educação como prática de liberdade/bell hooks; tradução de Marcelo Brandão Cipolla (2ª ed.). São Paulo, Editora WMF Martins Fontes.


  1. Gisele de Souza Gonçalves: Doutora em Sociedade, Cultura e Fronteiras, pela Universidade Estadual do Oeste do Paraná – Campus Foz do Iguaçu. Cidade: Foz do Iguaçu – PR, Brasil.

    Fernando José Martins: Doutor em Educação pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul. Docente e pesquisador da Universidade Estadual do Oeste do Paraná – Campus de Foz do Iguaçu. Cidade: Foz do Iguaçu – PR, Brasil.

  2. A Feira do Livro do ano de 2022 foi a 17ª edição do evento que aconteceu na cidade de Foz do Iguaçu no segundo semestre do ano. O evento reúne livreiros, instituições de ensino e autores e artistas de vários lugares, a fim de divulgar arte e leitura na cidade e região.


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