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Necropolítica – a pedagogia cotidiana do governo Bolsonaro no Brasil

Necropolítica – a pedagogia cotidiana do governo Bolsonaro no Brasil

João dos Reis Silva Júnior

Breno Blundi

Everton Fargoni

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No filme Blade Runner(1982) dirigido por Ridley Scott é imageticamente denso o início da película num cenário futurista da Los Angeles no ano 2019, tendo ao fundo, como uma personagem fundamental, a trilha sonora de Vangelis. Apesar do impacto emocional causado por esse início cinematográfico que arrebata um ser humano sensível, chama a atenção outra personagem igualmente intensa da obra: o modo de vida ali produzido pelo diretor. Há transeuntes aparentemente ausentes do que se passa a sua volta, trajando figurinos ecléticos ou sincréticos, mas que indicam uma unidade de grupos, podendo-se até inferir que são membros de tribos urbanas diferenciadas. Trata-se de uma cidade noturna, preta, repleta de diferentes luzes néons e chuva intensa, induzindo-nos a muitos significados e signos, que nos atrapalham a compreensão da organização urbana e social e os processos de reprodução social naquele momento histórico produzido pela ficção. Ficamos estáticos diante de tanta heterogeneidade, fragmentação e uma beleza artificial perfeita, provavelmente o que nos impede alcançar a compreensão imediata dos fenômenos que vemos, por meio do estabelecimento dos nexos existentes entre eles no momento de uma prática social no cotidiano. Apenas admiramos perplexos a ausência aparente da dimensão humana, e, por conseguinte, da racionalidade dos processos cotidianos de reprodução social.

Intrigados, passamos a observar o modus vivendi daqueles que ali parecem sobreviver. A construção que fazemos no âmbito de nossa consciência, que já sofreu o impacto do filme, resulta de nossa observação e percepção das cenas. Os nexos estabelecidos por esta via tornam-se construção mecânica limitada pela aparência e pelo imediato, pois, observamos os seres humanos tão somente no que fazem para conseguirem o que desejam para sobreviver naquele contexto, num presente eternizado. A cena é bela e aterradora, pois seres humanos como nós ignoram os semelhantes à sua volta e parecem adaptados ao ambiente. Em meio à barbárie são individualistas, violentos céticos e impassíveis diante do que se lhes apresenta.

Procurando encontrar algum sentido no que nos choca e compreender esses seres e suas relações num nível mais profundo, verifica-se que os processos de reprodução social das formas de sobrevivência daqueles seres sociais são permeados quase que exclusivamente pela utilidade comezinha. O critério que orienta e preside suas práticas, no imediato, é a utilidade para sua sobrevivência. Num primeiro momento é difícil apreender o que, de maneira mediada, as preside. Em acréscimo, suas práticas assim realizadas numa superficialidade extensiva cria uma pedagogia que formam os seres humanos voltados para si em detrimento do que os une, sua genericidade.

A prática social vista na cotidianidade dos seres humanos numa metrópole como São Paulo, Lisboa, Barcelona ou Londres apresenta as mesmas características anteriormente indicadas por meio da ficção. A heterogeneidade, a fragmentação, a impossibilidade do estabelecimento de nexos entre os fenômenos que estão presentes em nossas práticas cotidianas e a necessidade de dar respostas imediatas às demandas postas pela objetividade social nos impedem de assumir como critério de nossas ações a verdade histórica. Em lugar dela colocamos a verdade pragmática. Os sujeitos tendem, assim, a reproduzir somente as relações sociais de dominação ao se apropriarem da objetividade social e ao objetivarem suas metas estabelecidas momentaneamente. Portanto, para podermos compreender o objeto de nosso texto, faz-se necessário primeiro, compreender teoricamente a categoria do cotidiano, a diferença entre vida cotidiana e vida não-cotidiana, suas características e as respostas dos indivíduos, bem como a prática social pautada na cotidianidade, para isso, apoiamo-nos em Lukács (1966; 1967; 1979).

Portanto, para podermos compreender o objeto do texto, faz-se necessário primeiro, compreender teoricamente a diferença entre vida cotidiana e vida não-cotidiana, bem como a relação da categoria da cotidianidade e a prática social dos indivíduos.

Cotidiano, não-cotidiano e a prática social

O cotidiano como uma categoria de análise da sociedade e dos fenômenos que a fundamenta, não foi desenvolvido por Marx em suas obras e, tão pouco pelo marxismo vulgar. No entanto, alguns filósofos como Lukács (1855-1971), Agnes Heller (1929), Karel Kosik (1926-2003) e Henri Leferbvre (1901-1991), apoiados em uma tendência ontológico-marxista se propuseram a desenvolver teorias de análises a partir da cotidianidade. Desse modo, embasamo-nos nos escritos de Lukács (1966; 1979; 1994) para definir, rapidamente, o conceito de vida cotidiana, não-cotidiana e a relação dessas categorias com a prática social dos indivíduos com objetivo de compreender a pedagogia do cotidiano.

A sociedade moderna firmou-se a partir da razão, desse modo, o conhecimento cientifico é reconhecido como um saber válido, colocando em segundo plano, o saber cotidiano. Para Lukács (1966), o conhecimento científico pouco se preocupava em compreender o desenvolvimento e a fundamentação do pensamento cotidiano, bem como os seus fenômenos, consolidando dessa forma, uma epistemologia cotidiana burguesa de produção de ciência, principalmente quando remete questões ligadas à produção do conhecimento, omitindo-se em analisar a vida cotidiana a partir dela mesma e de suas contradições. Assim, ao despreocupar-se com o saber e as formas de agir do cotidiano, a epistemologia burguesa averbou uma separaçãoo entre: saber cotidiano e saber científico.

Contudo, “não há homem sem vida cotidiana” (LUKÁCS, 1979, p. 24), consequentemente:

Tanto mais quanto que o trabalho, como fonte permanente do desenvolvimento da ciência (terreno constantemente enriquecido por ele) alcança provavelmente na vida cotidiana o grau de objetivação supremo da cotidianidade [...] nisto pode ver-se claramente [...] que [...] os problemas que se colocam na ciência nascem direta ou mediatamente da vida cotidiana, e esta se enriquece constantemente com a aplicação dos resultados e os métodos elaborados pela ciência (LUKÁCS, 1966, p.43-45).

Com vistas a isso, é impossível analisar a relação entre os fenômenos sociais e sua essência sem levar em conta o seu desenvolvimento na vida cotidiana, isto é, a produção do conhecimento científico está intimamente ligado às demandas da cotidianidade, mesmo que a compreensão e objetivação teórica dos fenômenos observados não sejam, instantaneamente, assimilado pelo homem da vida cotidiana.

O cotidiano, segundo Lukács (1994), é definido como uma zona de mediação concreta entre demandas sociais, necessidades ideológicas e pressões externas, ou seja, teleologias em geral e suas causalidades impostas pelo modo de vida dos homens, isto é, pelo modo de ser e tornar-se social condicionados pela sociabilidade humana, por sua vez, pelo modo de produção vigente. Desse modo, “somente através da mediação de uma tal esfera podem ser cientificamente compreendidas as interrelações e interações entre o mundo econômico-social e a vida humana” (p. 9), por isso a necessidade da acepção, por parte da ciência, da cotidianidade.

A definição da vida cotidiana pode ser complementada como uma primeira mirada não espontânea da realidade social, isto é, não espontânea pelo fato de sua fundamentação fenomênica se satisfazer as necessidades buscando o útil para cada um, desconsiderando o gênero humano. Por sua vez, impedindo-os que ultrapassem o primeiro nível de abstração e concebam o real constitutivo dos fenômenos. Ou seja, em poucas palavras, a cotidianidade tem em si uma pedagogia do cotidiano está predominantemente plasmada no cotidiano e define-se por um processo de alienação do indivíduo social às demandas produtivas, políticas, econômicas e ideológicas da sociedade que ele está inserido.

Lukács não define teoricamente o conceito de vida não-cotidiana, mas, a partir da leitura de sua teoria acerca da cotidianidade podemos inferir uma concepção. A vida não-cotidiana, desenvolve-se a partir de objetivações direcionadas ao gênero humano por meio da consciência humana crítica. Entretanto, a consciência por si só não garante o processo de superação da cotidianidade, por isso Lukács (1966; 1979; 1994) enfatiza a necessidade de desenvolvimento de conhecimento científico a partir da vida cotidiana, afinal, a partir dela o homem pode apropriar-se dos conhecimentos científicos historicamente produzidos, visando o desenvolvimento de uma consciência crítica e plena ao gênero humano, possibilitando, deste modo, a sua inserção em uma vida não-cotidiana [1].

Podemos então definir como não-cotidiano a esfera social em que é possível desenvolver uma consciência crítica a partir de análises e reflexões de fenômenos por meio da ciência, arte, política, moral e filosofia, ou seja, o desenvolvimento de uma consciência que observa a sociedade sobre o prisma de um olhar não abstrato e sensível as coisas, isto é, capaz de perceber o fato em vez de fenômeno .

O conceito de vida cotidiana é, contrariamente fluida, fragmentada e heterogênea e exige resposta imediata do ser humano que procura dar tais respostas a estas demandas, sem a crítica devida. Quando analisamos a sociedade com base na teoria da cotidianidade, a totalidade das relações sociais pode ser percebida a existência da não cotidianidade. Isso nos permite apreender que a totalidade não é um todo estruturado e ideal, mas é a própria história que se movimenta por meio das práticas sociais dos seres humanos. A totalidade é um movimento produzido pelas prática cotidiana ou não-cotidiana. À frente Luckács afirma que a história não é teleológica, mas é a síntese de cada prática social em movimento. Assim, é possível afirmar que somente se apreende a totalidade, quando analisamos a pedagogia do cotidiana plasmada nas práticas às práticas sociais. Esta é única maneira de perceber a totalidade. Na verdade, a totalidade na cotidianidade pode ser compreendida a partir das necessidades dos indivíduos ensimesmados. A totalidade, nesse sentido, floresce de maneira contraditória e centralizada à cada indivíduo. Contraditória por fundamentar as práticas sociais e centralizada por ser constituída a partir das necessidades inerentes ao ensimesmamento de indivíduos. A totalidade leva em consideração todos os fenômenos da vida cotidiana: a sociabilidade, o modo de produção e o modo de vida dos homens; no entanto, a força motriz de sua constituição está ancorada nas necessidades dos indivíduos, centralizada e mediada pela relação existente entre: vida cotidiana e gênero humano.

Nessa perspectiva, a cotidianidade na prática social, pode ser analisada como um constituinte da prática social para além como algo concreto que se amalgama à toda prática social constituindo uma pedagogia do cotidiano e os conflitos daí recorrente.

A Pedagogia do Cotidiano pode ser caracterizada pela ação do Estado que se impõe sobre o indivíduo (muito visível nos autoritarismos). No capitalismo a pedagogia do cotidiano esta na origem de seu processo civilizatório. Finalmente existe a contradição que consiste em que o ser humano é parte de um gênero, mas não percebe, vivendo na esfera alienada do cotidiano, daí decore a contradição de existir com a alma cindida “sou versus estou”. Núcleo da pedagogia do cotidiano.

Constata-se com isso, que os indivíduos sociais estão expostos à cotidianidade e vivendo tal contradição ontológica. Afinal, da mesma forma que o capitalismo detém de múltiplos mecanismos de opressão e controle, a cotidianidade, como um instrumento social de dominação da reflexão e percepção dos indivíduos acerca da essência da realidade, também se constituí por um complexo fenômeno composto por múltiplas sínteses que engendra a realidade perceptível aos olhos abstratos de indivíduos sociais.

A pedagogia da vida cotidiana fundamenta nossa prática social em qualquer esfera da vida humana. Ela está intrínseca em todas as nossas relações sociais, seja com outros indivíduos, no trabalho ou a partir da reflexão de fenômenos sociais que nos aliena. Assim, o estranhamento às necessidades humanas ou ao modo de produção do gênero humano, é ancorado, a partir da cotidianidade, em obstáculos sociais que nos impedem de realizar atividades em conformidade com todas as potencialidades humanas.

A vida cotidiana coloca em interrompe todas as possibilidades de emancipação do gênero humano quando desenvolve, a partir de seus múltiplos mecanismos de inserção e controle, indivíduos alienados e ensimesmados buscando, orientado pela pedagogia do cotidiano, a dar respostas às suas próprias necessidades nunca de forma mediada com o gênero humano.

Um dos mecanismos que assegura a continuidade da vida cotidiana na contemporaneidade, é a política e o modo de acumulação do capital. Com vistas a isso, nos propomos analisar no próximo tópico, a partir da ótica da cotidianidade e de suas múltiplas sínteses, a necropolítica bolsonarista e o regime de acumulação que há nos dias de hoje, isto é, o crescimento econômico com base no endividamento social.

Reformas do Aparelho do Estado e a Pedagogia do Cotidiano

Na década de 1990 quando se discutia a Reforma do Aparelho do Estado no Brasil, nossa aproximação teórica da reforma se fazia no contexto econômico mundial. A crise e a reestruturação do Estado e das políticas sociais em geral não são fenômenos exclusivos do Brasil, nem apenas de países do Terceiro Mundo ou da América Latina, mas uma realidade presente e comum à maioria dos países de todas as dimensões, graus de desenvolvimento e latitudes. Trata-se de fenômenos que acompanham as transformações da base econômica dos diferentes países, a começar pelos chamado Primeiro Mundo, e especialmente da Europa Ocidental, onde o trânsito do Fordismo para um novo regime de acumulação e a crise do Estado do Bem-Estar Social se fazem sentir antes e com maior intensidade do que nos demais países desde as décadas de 1960 e 1970 e especialmente no de 1980.

Desde o início do governo de Fernando Henrique Cardoso, o MARE vem capitaneando a Reforma do Aparelho do Estado. Para tanto implementa um amplo programa de ações cujas justificativas são detalhadamente apresentadas pelo Ministro Bresser Pereira, em livros recentemente publicados (1996), (1998) e BRESSER PEREIRA, L. C. et al. (1998).

Ao Ministro, a reforma do Estado impõe-se a partir da década de 1990 e isto em decorrência do processo de globalização, que teria reduzido a autonomia dos Estados na formulação e implemento de políticas, assim como a partir do que chama de crise do Estado que se teria iniciado nos anos 70 e assumido plena definição nos anos 80. No Brasil a crise seria caudatária da grande crise econômica, que culmina no fenômeno da hiperinflação, quando, então, a reforma do Estado ter-se-ia tornado uma exigência imperiosa.

A reforma do Estado, entretanto, só se tornou um tema central no Brasil em 1995, após a eleição e a posse de Fernando Henrique Cardoso. Nesse ano, ficou claro para a sociedade brasileira que essa reforma se torna condição, de um lado, da consolidação do ajuste fiscal do Estado brasileiro e, de outro, da existência no país de um serviço público que iniciava, então, sua autofagia. Orientado pelas duas linhas acima mencionadas. O resultado das discussões, que não mudou a proposta da reforma pode se resumir na no documento do então ministro da Reforma do Estado e da Administração Pública.

A proposta de reforma do aparelho do Estado parte da existência de quatro setores dentro do Estado: (1) o núcleo estratégico do Estado, (2) as atividades exclusivas do Estado, (3) os serviços não exclusivos ou competitivos, e (4) a produção de bens e serviços para o mercado. (...) Na União, os serviços não exclusivos de Estado mais relevantes são as universidades, as escolas técnicas, os centros de pesquisa, os hospitais e os museus. A reforma proposta é a de transformá-los em um tipo especial de entidade não-estatal, as organizações sociais. A idéia é transformá-los, voluntariamente, em “organizações sociais”, ou seja, em entidades que celebrem um contrato de gestão com o Poder Executivo e contem com a autorização do parlamento para participar do orçamento público. (BRESSER PEREIRA, 1996: 286, ênfase nossa)

Estas distinções conduzem ao significado último da reforma do aparelho do Estado:

(1) tornar a administração pública mais flexível e eficiente; (2) reduzir seu custo; (3) garantir ao serviço público, particularmente aos serviços sociais do Estado, melhor qualidade; e (4) levar o servidor público a ser mais valorizado pela sociedade ao mesmo tempo que ele valorize mais seu próprio trabalho, executando-o com mais motivação (BRESSER PEREIRA, 1995: 8). Esta proposta vigente até os dias atuais estabelecia a base de ordenamento jurídico cuja racionalidade consiste em reduzir ao máximo a esfera pública, reduzindo os direitos do cidadão e do trabalhador, de um lado. De outro abrir um imenso mercado de serviços para o capital financeiro explorar. Os direitos tornaram-se mercadorias. Esta racionalidade acompanhou todos os presidentes de Fernando Henrique Cardoso, Lula, Dilma Rousseff, acentua-se com Temer (terceirização irrestrita e o fim da Consolidação das leis do Trabalho), o ápice de processo de espoliação dos cidadãos estaria por vir com Bolsonaro com as reforma previdenciária, ameaças de privatização das universidades públicas, buscando a reforma tributária, fiscal e administrativa.

Necropolítica – a pedagogia cotidiana de Bolsonaro

No processo liderado por Dilma e Temer uma força política renasceu e ganhou visibilidade por meio dos holofotes televisivos e das redes sociais, nutrindo-se da indignação coletiva contra a decadência econômica do país e do “nostálgico” tempo de opressão, repressão e morte do regime militar. Jair Messias Bolsonaro foi do desejo de uma década confusa para fruto de dois anos sem notáveis lideranças políticas ou de renovação. Como efeito, a nova onda conservadora ou nova direita, apresentou fortes sinais de retomada de presença na política e esfera pública logo no início da década de 2020, em marchas tímidas pela volta da ditadura militar ou em “atos cívicos” pró-Bolsonaro com participação de neonazistas.

Fortalecidos pela crise das esquerdas populistas, especialmente pelos equívocos dos governos do Partido dos Trabalhadores e, do avanço populista de direita no mundo todo, tendo como principal inspiração a eleição presidencial norte-americana de 2016, grupos conservadores se reorganizaram durante e após o processo de impeachment de Dilma Rousseff fazendo o Brasil experimentar um dos seus maiores dramas políticos e sociais. A anomia política (uma nova pedagogia do cotidiano) instaurada no dia a dia da sociedade brasileira rapidamente desidratou as conciliações dos governos petistas. A população passou a exigir um novo establishment político, mas em vez de pautar-se em ideias e exemplos, buscou outra vez no imaginário popular “heróis” ou “salvadores da pátria”, reforçando o movimento que se desencadeou no Bolsonarismo. De forma mais consistente Adorno (1948) advoga que A personalidade autoritária: a de que o autoritarismo mantém relações profundas com o “clima cultural geral” das sociedades erigidas sob a forma capitalista de produção, de modo que sua manifestação extrema no horror nazista na Alemanha não deveria ser considerada um evento isolado, mas uma possibilidade latente em outras sociedades e em outros contextos políticos.” Isto é o autoritarismo encontra-se na origem do processo civilizatório do capitalismo. A personalidade autoritária do processo civilizatório de um país ´periférico aflorou com em outros eventos do século XX.

O Bolsonarismo tem matriz de fora da sociedade, pois não pertence a ela e revive atributos de ideologias políticas como o fascismo e nazismo para dominação das massas e uma nova subjetividade do cidadão. As características do Bolsonarismo amalgamam-se com aspectos específicos do fascismo clássico em vários âmbitos e sentidos. Numa breve retomada histórica, entendemos que o fascismo é uma ideologia política originária na Itália após a primeira guerra mundial, habilitada pelo ditador Benito Mussolini. O medo do mito universal “comunismo” fez com que nascesse o fascismo na sociedade italiana como solução contra uma possível revolução comunista no país. No fascismo não há lugar para igualdade, visa a meritocracia e o estado exerce autoridade total sobre a população. No fascismo não há democracia, pois ela é exaurida da conjuntura social.

A ideologia fascista se espalhou para outros países, o maior exemplo na história mundial está no nazismo alemão de Hitler, mas também teve representação em países como Portugal e na Espanha. Considera-se fascismo como acontecimento histórico o regime de Mussolini, mas o fascismo como corrente ideológica e política foi e está viva podendo ser observada em governos que não se dizem fascistas, mas que adotam algumas ou todas as mesmas práticas.

A conceituação de Bolsonarismo detém as peculiaridades do fascismo europeu e mantém relação orgânica com os neoliberais brasileiros, porém num país de capitalismo periférico. Compreender as categorias do movimento implicou considerar relação de dependência entre o Brasil e as nações do centro econômico mundial. Apresentamos aqui as categorias do Bolsonarismo que não saíram somente de teorias, mas, sobretudo, de nosso esforço em ler a realidade por meio das diferentes mídias no Brasil e alhures. O esforço foi maior no momento da decisão da escolha das mais relevantes. No texto a seguir, recorremos às notas de rodapé para mostrarmos o que nos orientou, além das leituras de teorias sobre o Totalitarismo e sobre o Autoritarismo, para produzir um complexo categorial do Bolsonarismo. Alerto o leitor que as notas de rodapé são tão relevantes quando o texto. Elas mostram os elemento da pedagogia cotidiana durante o governo Bolsonaro.

Idolatria às tradições: os fascistas são obcecados pela ideia de que verdades universais foram reveladas pelos povos das antiguidades e da idade média e que eles são os únicos que entenderam a complexidade da vida humana. Cultuam tradições antigas, usando das ideias e seus símbolos criando suas próprias interpretações sem base epistemológica. Cultuam o negacionismo. Isso pode ser observado como traço do Bolsonarismo nas marcantes presenças de apoiadores do presidente em manifestações, ao utilizarem símbolos inspirados no nazismo ou no uso da bandeira da monarquia brasileira remetendo ao desejo da volta do regime político monárquico que se encerrou em 1889 com a Proclamação da República Brasileira. Os governos fascistas fazem isso para criar a narrativa de que são os verdadeiros herdeiros dessas tradições e que este deve ser o destino de suas nações. Em acréscimo, vale destacar que para os neoliberais o bolsonarismo tornou-se território fértil para finalizar as reformas estruturais e consolidar o crescimento econômico com base no endividamento social.

Reacionarismo: os fascistas veneram culturas do passado abominando pensamentos modernos ou como no Bolsonarismo, possuem antipatia com pensadores e concepções progressistas. Filósofos, antropólogos, sociólogos e todos outros críticos (principalmente intelectuais produtores de conhecimento nas universidades brasileiras) são considerados no Bolsonarismo o mesmo que os iluministas foram (e são) para os fascistas: os subversivos da sociedade. Pois no iluminismo defendia-se a liberdade ideológica, o estado laico e o pensamento científico. Por isso, os bolsonaristas reacionários são contra qualquer tipo de mudança social. Um clássico exemplo se encontra na Espanha fascista do General Franco onde a pluralidade religiosa foi proibida e o catolicismo tornando-se a religião oficial do estado espanhol. Vale destacar que, para a consolidação de qualquer regime totalitário, o irracionalismo é o melhor caminho para moldar a subjetividade dos cidadãos.

Anti-intelectualismo : da mesma forma que fascistas não são adeptos do conhecimento científico, no Bolsonarismo existe aversão ao pensamento aprofundado ou de reflexão. Existe uma pedagogia estratégia, exercício de controle e ideias na cúpula dos políticos bolsonaristas para dominação de massas, mas o Bolsonarismo em prática, absorvido pelo eleitor, na forma de agir, está na ação rápida por violência física ou verbal. A maioria das decisões fascistas é tomada por instintos e não por estudos ou pesquisa. No fascismo ideológico, considera-se como “fraqueza” o planejamento científico. A repulsa ao mundo intelectual é típica do fascismo e do Bolsonarismo, como pode ser observado no ininterrupto ataque dos bolsonaristas às universidades públicas que veremos à frente mais detalhadamente. Contudo, isso não procede para os neoliberais que estão abraçados com o presidente, nem para a elite das Forças Armadas.

Autoritarismo e prepotência : é considerado como inimigo do governo todo e qualquer que se opõe a ele, principalmente quando há manifestos públicos críticos. Característica comum do fascismo e de outros regimes ditatoriais, as pessoas que se opunham ao governo eram perseguidas. Nos tempos atuais, para mascarar a forma autoritária, artistas e outros intelectuais, como os acadêmicos, são acuados pela polícia e por milícias digitais compactuadas com o governo a fim de pulverizar a fala da oposição. Para os fascistas e nazistas, quem pensa diferente rompe com a “unidade” do governo e é mais que um mero inimigo, é considerado traidor da pátria e deve ser suprimido para que sirva de exemplo para os outros. Razão do fascismo italiano e muito visto no Bolsonarismo prático nos atos do eleitorado de Bolsonaro: crer, obedecer e combater. Novamente, aqui, interessa o irracionalismo.

Aversão à pluralidade: um dos modos operantes mais comuns do fascismo é o trato e tato dos fascistas com o povo por meio do medo do diferente. Verifica-se esta característica no Bolsonarismo na forma de agir do governo e no comportamento de seus apoiadores pelo menosprezo de minorias ou na relativização do machismo cotidiano. Entende-se como desprezo ao dissemelhante nos falares, por exemplo, do próprio presidente Jair Bolsonaro, conforme declarou em “tom de brincadeira” que fuzilaria “petralhada” no Acre ou encontro na Paraíba em fevereiro de 2017 ao dizer “Deus acima de tudo. Não tem essa historinha de Estado laico não. O Estado é cristão e a minoria que for contra que se mude. As minorias têm que se curvar para as maiorias”.

Pacto com as elites (burguesia e neoliberais): o discurso fascista nutre-se da frustração da classe média, enquanto no Bolsonarismo, essa atinge todas as classes sociais, porém intensifica ainda mais o poder societal nas mãos da burguesia neoliberal. A crise econômica brasileira, conforme delineada anteriormente, fez com que as pessoas da burguesia se sentissem abandonadas pelo governo e ameaçadas por quem compõe as classes “abaixo”. É daí que se retoma o medo do mito universal de uma “revolução comunista” no Brasil e seus “privilégios” ameaçados. Na Alemanha Nazista, Adolf Hitler, por exemplo, deu o máximo de benefícios para grandes latifundiários, empresários e banqueiros. Os governos de ideologia fascista prometem vantagens para a classe média, porém quem recebe as benfeitorias é a burguesia. Por isso que no âmbito político bolsonarista brasileiro o elitismo faz-se muito presente, seja pela indicação de empresários ou intermediadores do mercado financeiro em funções do governo ou pela adesão ideológica ao governo. Um forte abraço dialético entre fascistas e neoliberais.

Nacionalismo Servil : polo propulsor do fascismo, o nacionalismo é a forma fanática da concepção da história, valores e cultura de um país como soberania acima de outras nações. Porém, no Bolsonarismo ocorre o nacionalismo às avessas, se considera ultranacional, usa muito as cores da nação – o verde e amarelo – mas adota discursos, exemplos e idolatra outros modelos pátrios, tendo nos Estados Unidos seu objeto de vislumbre. Repete-se assim como na propaganda nazista, o intento do governo para seu povo adotar o “forte orgulho nacional”. No âmbito econômico é exatamente o objetivo não só dos Estados Unidos, mas de todos os países do centro econômico mundial.

Necropolítica e necro -estado: na ideologia fascista e no Bolsonarismo os discursos são ambíguos e sempre carregados de muito ódio, mas são precisos porque fazem a população sentir-se ameaçada no mesmo tempo que se vendem como soluções contra o inimigo dela. Inimigo criado pela própria narrativa fascista. Na história, muitos foram os discursos de figuras públicas, como Mussolini e Hitler, ao pregarem a “ameaça comunista”, fato verbalizado pelo líder nazista na luta contra o “marxismo”. Bolsonaro repete aos quatro ventos a teoria de que há, no Brasil, um plano comunista para destruir a nação e discorda incessantemente de órgãos e pessoas públicas como a Organização Mundial da Saúde (OMS), Organização das Nações Unidas (ONU) entre outras instituições científicas que alertam sobre os problemas sociais, ambientais e educacionais do Brasil, além de tratar com desdém a vida humana ao dizer em plena pandemia da COVID-19 que a doença é “uma gripezinha” ou quando perguntado foi sobre as mortes respondendo: “E daí!”. Mais uma vez aparece o negacionismo como um eixo central do Bolsonarismo.

Militarismo e “milicianismo”: base da força autoritária fascista e predominância na governança. Em seu governo, Bolsonaro tem mais militares no primeiro escalão do que no governo do general Castelo Branco (1964-1967), que inaugurou o regime militar no golpe de 1964. Há o “milicianismo” como prática.

Fortalecidos pela crise das esquerdas populistas, especialmente pelos equívocos dos governos do Partido dos Trabalhadores e, do avanço populista de direita no mundo todo, tendo como principal inspiração a eleição presidencial norte-americana de 2016, grupos conservadores se reorganizaram durante e após o processo de impeachment de Dilma Rousseff fazendo o Brasil experimentar um dos seus maiores dramas políticos e sociais. A anomia política (uma nova pedagogia do cotidiano) instaurada no dia a dia da sociedade brasileira rapidamente desidratou as conciliações dos governos petistas. A população passou a exigir um novo establishment político, mas em vez de pautar-se em ideias e exemplos, buscou outra vez no imaginário popular “heróis” ou “salvadores da pátria”, reforçando o movimento que se desencadeou no Bolsonarismo. De forma mais consistente Adorno (1948) advoga que A personalidade autoritária: a de que o autoritarismo mantém relações profundas com o “clima cultural geral” das sociedades erigidas sob a forma capitalista de produção, de modo que sua manifestação extrema no horror nazista na Alemanha não deveria ser considerada um evento isolado, mas uma possibilidade latente em outras sociedades e em outros contextos políticos.” Isto é o autoritarismo encontra-se na origem do processo civilizatório do capitalismo. A personalidade autoritária do processo civilizatório de um país ´periférico aflorou como em outros eventos do século XX.

O Bolsonarismo tem matriz de fora da sociedade, pois não pertence a ela e revive atributos de ideologias políticas como o fascismo e nazismo para dominação das massas e uma nova subjetividade do cidadão. A subjetividade é forjada pela pedagogia cotidiana do Bolsonarismo. As características do Bolsonarismo amalgamam-se com aspectos específicos do fascismo clássico em vários âmbitos e sentidos. Numa breve retomada histórica, entendemos que o fascismo é uma ideologia política originária na Itália após a primeira guerra mundial, habilitada pelo ditador Benito Mussolini. O medo do mito universal “comunismo” fez com que nascesse o fascismo na sociedade italiana como solução contra uma possível revolução comunista no país. No fascismo não há lugar para igualdade, visa a meritocracia e o estado exerce autoridade total sobre a população. No fascismo não há democracia, pois ela é exaurida da conjuntura social.

A ideologia fascista se espalhou para outros países, o maior exemplo na história mundial está no nazismo alemão de Hitler, mas também teve representação em países como Portugal e na Espanha. Considera-se fascismo como acontecimento histórico o regime de Mussolini, mas o fascismo como corrente ideológica e política foi e está viva podendo ser observada em governos que não se dizem fascistas, mas que adotam algumas ou todas as mesmas práticas, fortalecendo a pedagogia cotidiana bolsonarismo. Desta forma, embora traga aspectos do fascismo, no Brasil, há um autoritarismo específico, daí a razão de nominarmos como Bolsonarismo.

A conceituação de Bolsonarismo detém as peculiaridades do fascismo europeu e mantém relação orgânica com os neoliberais brasileiros, porém num país de capitalismo periférico. Compreender as categorias do movimento implicou considerar relação de dependência entre o Brasil e as nações do centro econômico mundial. Apresentamos aqui as categorias do Bolsonarismo que não saíram somente de teorias, mas, sobretudo, de nosso esforço em ler a realidade por meio das diferentes mídias no Brasil e alhures. O esforço foi maior no momento da decisão da escolha das mais relevantes. No texto a seguir, recorremos às notas de rodapé para mostrarmos o que nos orientou, além das leituras de teorias sobre o Totalitarismo e sobre o Autoritarismo, para produzir um complexo categorial do Bolsonarismo.

Idolatria às tradições : os fascistas são obcecados pela ideia de que verdades universais foram reveladas pelos povos das antiguidades e da idade média e que eles são os únicos que entenderam a complexidade da vida humana. Cultuam tradições antigas, usando das ideias e seus símbolos criando suas próprias interpretações sem base epistemológica. Cultuam o negacionismo. Isso pode ser observado como traço do Bolsonarismo nas marcantes presenças de apoiadores do presidente em manifestações, ao utilizarem símbolos inspirados no nazismo [2] ou no uso da bandeira [3] da monarquia brasileira remetendo ao desejo da volta do regime político monárquico que se encerrou em 1889 com a Proclamação da República Brasileira. Os governos fascistas fazem isso para criar a narrativa de que são os verdadeiros herdeiros dessas tradições e que este deve ser o destino de suas nações. Em acréscimo, vale destacar que para os neoliberais o bolsonarismo tornou-se território fértil para finalizar as reformas estruturais e consolidar o crescimento econômico com base no endividamento social.

Reacionarismo : os fascistas veneram culturas do passado abominando pensamentos modernos ou como no Bolsonarismo, possuem antipatia com pensadores e concepções progressistas. Filósofos, antropólogos, sociólogos e todos outros críticos (principalmente intelectuais produtores de conhecimento nas universidades brasileiras) são considerados no Bolsonarismo o mesmo que os iluministas foram (e são) para os fascistas: os subversivos da sociedade. Pois no iluminismo defendia-se a liberdade ideológica, o estado laico e o pensamento científico. Por isso, os bolsonaristas reacionários são contra qualquer tipo de mudança [4] social. Um clássico exemplo se encontra na Espanha fascista do General Franco onde a pluralidade religiosa foi proibida e o catolicismo tornando-se a religião oficial do estado espanhol. Vale destacar que, para a consolidação de qualquer regime totalitário, o irracionalismo é o melhor caminho para moldar a subjetividade dos cidadãos.

Anti-intelectualíssimo : da mesma forma que fascistas não são adeptos do conhecimento científico, no Bolsonarismo existe aversão ao pensamento aprofundado ou de reflexão. Existe estratégia, exercício de controle e ideias na cúpula dos políticos bolsonaristas para dominação de massas, mas o Bolsonarismo em prática, absorvido pelo eleitor, na forma de agir, está na ação rápida por violência física ou verbal. A maioria das decisões fascistas é tomada por instintos e não por estudos ou pesquisa. No fascismo ideológico, considera-se como “fraqueza” o planejamento científico. A repulsa ao mundo intelectual é típica do fascismo e do Bolsonarismo, como pode ser observado no ininterrupto ataque [5] dos bolsonaristas às universidades públicas que veremos à frente mais detalhadamente. Contudo, isso não procede para os neoliberais que estão abraçados com o presidente, nem para a elite das Forças Armadas.

Aversão à pluralidade : um dos modos operantes mais comuns do fascismo é o trato e tato dos fascistas com o povo por meio do medo do diferente. Verifica-se esta característica no Bolsonarismo na forma de agir do governo e no comportamento de seus apoiadores pelo menosprezo de minorias ou na relativização do machismo cotidiano. Entende-se como desprezo ao dissemelhante nos falares, por exemplo, do próprio presidente Jair Bolsonaro, conforme declarou em “tom de brincadeira” que fuzilaria [6] “petralhada” no Acre ou encontro [7] na Paraíba em fevereiro de 2017 ao dizer “Deus acima de tudo. Não tem essa historinha de Estado laico não. O Estado é cristão e a minoria que for contra que se mude. As minorias têm que se curvar para as maiorias”.

Pacto com as elites (fascistas e neoliberais) : o discurso fascista nutre-se da frustração da classe média, enquanto no Bolsonarismo, essa atinge todas as classes sociais, porém intensifica ainda mais o poder societal nas mãos da burguesia neoliberal. A crise econômica brasileira, conforme delineada anteriormente, fez com que as pessoas da burguesia se sentissem abandonadas pelo governo e ameaçadas por quem compõe as classes “abaixo”. É daí que se retoma o medo do mito universal de uma “revolução comunista” no Brasil e seus “privilégios” ameaçados. Na Alemanha Nazista, Adolf Hitler, por exemplo, deu o máximo de benefícios para grandes latifundiários, empresários e banqueiros. Os governos de ideologia fascista prometem [8] vantagens para a classe média, porém quem recebe as benfeitorias é a burguesia. Por isso que no âmbito político bolsonarista brasileiro o elitismo faz-se muito presente, seja pela indicação de empresários ou intermediadores do mercado financeiro em funções do governo ou pela adesão ideológica ao governo. Um forte abraço dialético entre fascistas e neoliberais.

Nacionalismo Servil : polo propulsor do fascismo, o nacionalismo é a forma fanática da concepção da história, valores e cultura de um país como soberania acima de outras nações. Porém, no Bolsonarismo ocorre o nacionalismo às avessas, se considera ultranacional, usa muito as cores da nação – o verde e amarelo – mas adota discursos, exemplos e idolatra outros modelos pátrios, tendo nos Estados Unidos seu objeto [9] de vislumbre. Repete-se assim como na propaganda nazista, o intento do governo para seu povo adotar o “forte orgulho nacional”. No âmbito econômico é exatamente o objetivo não só dos Estados Unidos, mas de todos os países do centro econômico mundial.

Necropolítica e necro -estado : na ideologia fascista e no Bolsonarismo os discursos são ambíguos e sempre carregados de muito ódio, mas são precisos porque fazem a população sentir-se ameaçada no mesmo tempo que se vendem como soluções contra o inimigo dela. Inimigo criado pela própria narrativa fascista e neoliberal. Na história, muitos foram os discursos de figuras públicas, como Mussolini e Hitler, ao pregarem a “ameaça comunista”, fato verbalizado pelo líder nazista na luta contra o “marxismo”. Bolsonaro repete aos quatro ventos a teoria de que há, no Brasil, um plano comunista para destruir a nação e discorda incessantemente de órgãos e pessoas públicas como a Organização Mundial da Saúde (OMS), Organização das Nações Unidas (ONU) entre outras instituições científicas que alertam [10] sobre os problemas sociais, ambientais e educacionais do Brasil, além de tratar com desdém a vida humana ao dizer em plena pandemia da COVID-19 que a doença é “uma gripezinha” ou quando perguntado foi sobre as mortes respondendo: “E daí!”. Mais uma vez aparece o negacionismo como um eixo central do Bolsonarismo.

Belicosidade : o Bolsonarismo é influenciado pelo fascismo na perene ideia de busca pelo inimigo e confrontos. Sem “uma ameaça” o fascismo não existe, logo o Bolsonarismo também não. Isso porque o Bolsonarismo vem de fora e se põe contra a sociedade. Essa forma ideológica também é uma forma política, porque deixa à deriva vidas humanas devido ao teor bélico no modelo de governo. É desse segmento que aparece a obsessão por armamentismo e militarismo, típico do franquismo, o “Fascismo Espanhol” que obrigou crianças a usarem uniformes militares e no caso da juventude hitlerista, fato emblematicamente abordado pelo premiado filme Jojo Rabbit de Taika Waititi (2019) . No Brasil [11], com o triunfo de Jair Bolsonaro nas eleições, o armamentismo faz-se presente por meio de medidas [12] que flexibilizam a posse e porte de armas e nos simbólicos gestos do presidente e seus seguidores com “arminhas” nas mãos.

Militarismo e “milicianismo” : base da força autoritária fascista e predominância na governança. Em seu governo, Bolsonaro tem mais militares no primeiro escalão do que no governo do general Castelo Branco (1964-1967), que inaugurou o regime militar no golpe de 1964. Há o “milicianismo” como prática [13]. Tática de movimentos autoritários e intimidatórios com desprezo pelas instituições democráticas (mesmo pronunciando garanti-la) e aparelhamento social via força paramilitar. Utiliza o ufanismo dos apoiadores para expandir o neototalitarismo contra quem sem opõe combinado com a cultura política ultraliberal – amálgama do DNA bolsonarista com a cartilha econômica de Paulo Guedes.

Intolerância e Preconceitos (machismo, racismo, homofobia e xenofobia): os fascistas se orgulham de serem machistas, homofóbicos e xenófobos. Na história se proclamam como homens de bem na figura de “homem trabalhador” e “homem de família”, enquanto o papel das mulheres na sociedade é de mera reprodutora. Os fascistas são contrários a qualquer forma de orientação sexual que não seja a heterossexual e afirmam que tal anormalidade vai contra o modelo de “bons costumes” da família tradicional. Na época da Alemanha nazista, aproximadamente cem mil homens foram presos por serem considerados homossexuais, sendo executadas em torno de 60% dessas vidas em razão de suas orientações sexuais. As estereotipias advindas do Bolsonarismo contêm os quatro elementos e estão totalmente presentes no cotidiano brasileiro. O machismo como desprezo às mulheres é fato diário e observado nas falas do próprio presidente. Por exemplo, na entrevista [14] ao jornal gaúcho Zero Hora em 2015, Bolsonaro disse que mulheres são problemas para empresas porque engravidam e geram despesas aos contratantes por usarem a licença-maternidade. A homofobia está explícita em toda sociedade brasileira, sendo o Brasil o líder [15] mundial de assassinatos de transexuais e tendo no Bolsonarismo a representação máxima da verbalização [16] da incapacidade de amar um filho gay. Enquanto, na mesma esfera social o racismo está representado pela indiferença com vidas negras, tendo como fato [17] a fala de Bolsonaro em abril de 2017 ao expressar que “o afrodescendente mais leve lá pesava sete arrobas”.

Propaganda : se o nacionalismo é o carro chefe do fascismo, no Bolsonarismo eleva-se a forma de diálogo nacional para o escárnio cotidiano. Nota-se esse elemento pelas forças das ideias e nas emblemáticas campanhas digitais, fonte maior no cotidiano alienador por meio de notícias falsas e no caricato uso das redes sociais com políticos [18] de convergência usando charges e montagens digitais para difamação de adversários, enquanto seus eleitores acreditam e compartilhar injúrias.

Notas Finais

A pedagogia do cotidiano no capitalismo é a objetivação de muitos fatores, porém sua origem encontra-se no início do processo civilizatório deste modo de produção. Portanto, ela tem um traço estrutural deste modo de produção. E o regime político é elástico. A democracia, diante da concentração de patrimônio e renda mundiais, se enfraquece, bem com o Estado de Direito.

Tal pedagogia do cotidiano, na condição de totalização no Brasil se plasma na atividade humana no cotidiano, aí ela se torna concreta, e tende a formar seres humanos que negam tudo o que é ciência, dando origem ao anti-intelectualismo e promovem um ataque à ciência e às universidades. Sua base é o conhecimento do senso comum do cotidiano. Agem orientados pelo senso comum e o folclore e outas lendas urbanas e, não pela razão. Em razão disso a ciência e s universidade públicas estão sob ataque. O método desta loucura é tal que o presidente se expôs tanto dizendo que tudo não passava de uma gripezinha, (referindo-se à pandemia. Quando redigo este texto ele está internado com porque foi afetado pelo COVID-19.

A pedagogia cotidiana do Bolsonarismo traz um fato novo. Em razão da crise econômica mundial que vem desde 2008, tal movimento abraça os neoliberais e produz uma série de direitos humanos por meio das reformas na busca de reduzir ao máximo a esfera pública e abrir um espaço amplo para o capital financeiro. Há um abraço dialético entre o passado e o presente no pacto entre fascistas e neoliberais que não se largam. A Terceirização Irrestrita, o fim da Consolidação das Leis do Trabalho, a Reforma de Previdência, as futuras reformas tributária, fiscal e política tenderão a fazer todos os cidadãos que entrarem no escasso mercado de trabalho brasileiro devedores de longas dívidas, que tampouco sabem se vão usufruir ou morre antes. No Brasil, hoje, a pedagogia do cotidiano é necropolítica. Triste fim.


Referências

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LUKÁCS, G. Ontologia do ser social: os princípios ontológicos fundamentais de Marx. São Paulo: Ciências Humanas, 1979.

LUKÁCS, G. Os Anos de Aprendizado de Wilhelm Meister. In: GOETHE. Os Anos de Aprendizado de Wilhelm Meister. São Paulo: Ensaio, 1994.

SILVA JÚNIOR, J. R. Growth Based on Social Debt, Neoconservatism and the Work os the Researcher in Recent History of Brazil. Open Access Library Journal, v. 06, p. 1-30, 2019.

SILVA JÚNIOR, J. R. The new Brazilian University - a busca por resultados comercializáveis : para quem ? 1 ed. UNESP/Marília, RET: Projeto Editoria Práxis, 2017, v. 1. 285p.

SILVA JÚNIOR, J. R.; CARVALHO, C.P. F . Pesquisa, pós-graduação e conhecimento-mercadoria aplicadas no Brasil. Revista EccoS - Ver. Cient., São Paulo, n. 44, p. 23-42, set/dez. 2017.


[1] Faz-se necessário ressaltar que a inserção do homem à vida não-cotidiana não significa que ele não faça mais parte da cotidianidade. A vida não-cotidiana é, na realidade, um pequeno vislumbre da essência real do fenômeno que foi superado naquele momento. A cotidianidade é intrínseca às práticas sociais do gênero humano, nesse sentido, superá-la em todas as suas determinações em uma sociedade capitalista é humanamente impossível.

[2] Bandeira inspirada no nazismo é exibida em manifestação pró-Bolsonaro. Congresso em Foco. 16 out. 2018. Disponível em: https://congressoemfoco.uol.com.br/eleicoes/bandeira-inspirada-no-nazismo-e-exibida-em-manifestacao-pro-bolsonaro/ Acesso em: 20 jun. 2020.

[3] Bandeira da monarquia foi estendida ato pela Lava Jato. Exame, 01 jul. 2019. Disponível em: https://exame.com/brasil/bandeira-da-monarquia-e-retirada-durante-ato-pela-lava-jato-em-sorocaba/ Acesso em: 21 jun. 2020.

[4] Com o colapso do lulismo, não há dinâmica política convencional remanescente no Brasil. O “Bolsonarismo” surgiu em seu lugar, mas durante o período de transição o que aparece é uma política paralela baseada na religião. Evangélicos e a ascensão da extrema-direita no Brasil. PINEZI, A. K. M. Le Monde Diplomatique Brasil, 13 maio 2019. Disponível em: https://diplomatique.org.br/evangelicos-e-a-ascensao-da-extrema-direita-no-brasil/ Acesso em: 20 jun. 2020.

[5] Para o núcleo intelectual do Bolsonarismo, e (por mais que a expressão soe estranha) ele existe, a disputa que antecede o embate político se dá invariavelmente na esfera cultural. as origens intelectuais do ataque bolsonarista às universidades públicas. TRIGUEIRO, G. Revista Época. 20 maio 2019. Disponível em: https://epoca.globo.com/as-origens-intelectuais-do-ataque-bolsonarista-as-universidades-publicas-artigo-23676332 Acesso em: 19 jun. 2020.

[6] Campanha confirma vídeo em que Bolsonaro fala em 'fuzilar petralhada do Acre'. Jornal Extra, 03 set. 2018. Disponível em: https://extra.globo.com/noticias/brasil/campanha-confirma-video-em-que-bolsonaro-fala-em-fuzilar-petralhada-do-acre-foi-brincadeira-23033904.html Acesso em: 19 jun. 2020.

[7] Bolsonaro defende intolerância e faz apologia ao crime em visita à Paraíba. Jornal da Paraíba, 09 fev. 2017. Disponível em: http://blogs.jornaldaparaiba.com.br/suetoni/2017/02/09/bolsonaro-defende-intolerancia-e-faz-apologia-ao-crime-em-visita-a-paraiba/ Acesso em: 20 jun. 2020.

[8] O presidente atravessou a pé a Praça dos Três Poderes, acompanhado dos empresários e dos ministros da Economia, Paulo Guedes, da Casa Civil, Walter Braga Netto, e da Secretaria de Governo, Luiz Eduardo Ramos, além de alguns parlamentares. Bolsonaro leva ministros e empresários para pressionar STF a acabar com o isolamento. MURAKAWA, F; MARTINS, L; OTTA, L. A. Revista Valor Econômico. 07 mai. 2020. Disponível em: https://valor.globo.com/politica/noticia/2020/05/07/bolsonaro-leva-empresarios-ao-stf-com-guedes-e-militares.ghtml Acesso em: 21 jun. 2020.

[9] Bolsonaro diz ‘I love you ’ para Trump, que desdenha: ‘Bom te ver de novo’. Jornal O Dia. 25 set. 2019. Disponível em: https://istoe.com.br/bolsonaro-diz-i-love-you-para-trump-que-desdenha-bom-te-ver-de-novo/ Acesso em: 19 jun. 2020.

[10] Bolsonaro critica mensagem do Papa Francisco em favor da Amazônia. UOL, 14 fev. 2020. Disponível em: https://noticias.uol.com.br/ultimas-noticias/ansa/2020/02/14/bolsonaro-critica-mensagem-do-papa-em-favor-da-amazonia.htm Acesso em: 20 jun. 2020.

[11] O avanço silencioso das escolas militares na rede particular de ensino. MOTA, C. V. UOL Educação, 14 jun. 2020. Disponível em: https://educacao.uol.com.br/noticias/bbc/2020/06/14/o-avanco-silencioso-das-escolas-militares-na-rede-particular-de-ensino.htm Acesso em: 25 jun. 2020.

[12] Bolsonaro promete a apoiadores mais medidas de flexibilização de armas. GULLINO, D. O Globo, 04 jun. 2020. Disponível em: https://oglobo.globo.com/brasil/bolsonaro-promete-apoiadores-mais-medidas-de-flexibilizacao-de-armas-24462130 Acesso em: 21 jun. 2020.

[13] O avanço silencioso das escolas militares na rede particular de ensino. MOTA, C. V. UOL Educação, 14 jun. 2020. Disponível em: https://educacao.uol.com.br/noticias/bbc/2020/06/14/o-avanco-silencioso-das-escolas-militares-na-rede-particular-de-ensino.htm Acesso em: 25 jun. 2020.

[14] Jair Bolsonaro diz que mulher deve ganhar salário menor porque engravida. LIMA, V. Revista Crescer, 23 fev. 2015. Disponível em: https://revistacrescer.globo.com/Familia/Maes-e-Trabalho/noticia/2015/02/jair-bolsonaro-diz-que-mulher-deve-ganhar-salario-menor-porque-engravida.html Acesso em: 21 jun. 2020.

[15] Brasil é o país mais violento para travestis e transexuais no mundo. OLIVEIRA, L. O Povo, 27 jan. 2020. Disponível em: https://www.opovo.com.br/noticias/brasil/2020/01/27/brasil-e--o-pais-mais-violento-para-travestis-e-transexuais-no-mundo--revela-estudo.html Acesso em: 19 jun. 2020.

[16] O que Bolsonaro já disse de fato sobre mulheres, negros e gays. EL País Brasil, 07 out. 2018. Disponível em: https://brasil.elpais.com/brasil/2018/10/06/politica/1538859277_033603.html Acesso em: 13 jun. 2020.

[17] Bolsonaro: “Quilombola não serve nem para procriar”. Congresso em Foco, UOL, 05 abr. 2017. Disponível em: https://congressoemfoco.uol.com.br/especial/noticias/bolsonaro-quilombola-nao-serve-nem-para-procriar/ Acesso em: 13 jun. 2020.

[18] Embaixada da China rebate Weintraub sobre coronavírus : “Cunho racista”. LUCIZANO, E. UOL, 06 abr. 2020. Disponível em: https://noticias.uol.com.br/politica/ultimas-noticias/2020/04/06/embaixada-da-china-weintraub-coronavirus.htm Acesso em: 28 maio 2020.